Discutível Perfeição: Novembro 2018

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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

CAMPO DE TRIGO


Eu estava deita em minha cama remoendo pela milésima vez os mesmos acontecimentos. Tudo estava de ponta cabeça, um verdadeiro caos. Nada era como antes, a cada dia eu me olhava no espelho e a imagem refletida estava mais irreconhecível. Quando essa garota tomou meu lugar? Indagava pra mim mesma, no entanto só sentia dores cada vez mais fortes em meu peito. Minhas forças estão arruinadas e minha esperança pela primeira vez em anos, submergia. O medo havia me dominado de tal forma que nada mais tinha um significado. Destruídas; acho que essa palavra descreve bem minhas emoções. Nada mais fazia sentido nesse planeta maluco, minha vontade de desistir tornava-se mais forte a cada minuto. Bases quebradas, sonhos frustrados. Como recuperar alguém que esta totalmente destroçada?

- Socorro! – sussurrei e lágrimas rolaram pelo meu rosto, era um choro amargo.

Abracei meus joelhos e a dor se tornou insuportável, parecia que alguém estava apertando meu coração e como num flash a inconsciência me abraçou. Acordei no meio de um campo de trigo, o vento bagunçava meus cabelos e o sol me cegava. Com certa dificuldade avistei um rio de águas cristalinas, dei alguns passos em direção a ele.

- O que faz aqui minha jovem? – uma voz baixa questionou.

Virei-me para ver quem era o dono da voz, me surpreendi com o que meus olhos avistaram, era um jovem de pouco mais de vinte anos que vinha em minha direção.

- Sinceramente... Não faço a menor idéia... – respondi confusa.

- Alguém ouviu teu pedido de socorro... Hora de se libertar... Voltar a ser a pessoa maravilhosa que era... Ainda posso ver algo especial em seus olhos... – disse calmamente enquanto se aproximava de mim.

- Como você fará isso? – perguntei confusa e ao mesmo tempo desacreditada.

- Venha comigo... – disse e agarrou uma das minhas mãos.

Andamos por aquele campo até chegarmos à margem do rio. Naquele momento meus olhos deslumbravam a beleza daquele lugar, como algo tão belo pode existir? Encanto; acho que essa é a palavra para definir o que estava sentindo. Me virei e o encarei, meus pensamentos estavam confusos. Ele me olhou de uma maneira tão afetuosa, como se soubesse exatamente o que estava se passando na minha mente.

- Sei que você está dominada pelo medo, mas não pode deixar que ele te impeça de fazer o que você precisa fazer... Tua missão ainda não está acabada... Não é hora de desistir... Levante-se e encare o medo... Não penses que és fraca apenas por confessar que não tem mais forças para continuar... Isso é uma atitude nobre... – disse docemente.

- Mas...

- Não se deixe sobrepujar... Você só voltará a se reconhecer quando dominar o medo... Agora é hora de voltar à realidade... - disse e me empurrou para dentro do rio.

Acordei assustada, mas me senti diferente. A dor que me perturbava, agora já não tinha tanta força. Sentei na minha cama e comecei a pensar. O que significava aquele sonho? Como iria controlar o medo? Perguntei para mim mesma, entretanto ainda não tinha respostas. Resolvi ir tomar um banho para relaxar, afinal de cabeça quente não conseguiria pensar em uma solução sensata. Contudo as palavras que aquele rapaz me disse faziam algum sentido. Mas ainda não sabia exatamente qual, porém vou descobrir.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

DECISÃO


Meus olhos abriram-se com tamanha preguiça, abraçada ao edredom rolei para o outro lado da cama. Não estava com vontade de levantar, todavia, era preciso. As responsabilidades me gritavam, tentei ignorá-las, mas não tive sucesso. Suspirei ao focar meus olhos na janela, ainda estava nublado. Então, num ato programado, rolei novamente para a beirada da cama e tão logo coloquei meus pés em contato com o chão gélido caminhei lentamente até a janela, abri as cortinas e encarei o dia cinzento. Permaneci ali por alguns minutos, mas logo dei as costas para a vidraça e segui rumo à cozinha, precisava de uma boa dose de café.

Durante o trajeto, me deparei com o relógio na parede. Por alguma razão desconhecida, me forcei a brecar. Observei com uma atenção fora do comum os ponteiros viajarem, me perguntei algumas vezes por que estava ali, contudo não encontrei uma resposta plausível. Minha mente começou a divagar, os ponteiros congelaram, lembranças açucaradas me inundaram. Um sorriso tolo se pintou em meus lábios, relembrei detalhes dos quais havia esquecido. De repente a campainha tocou, isso me fez dar um pulo. Ainda meio desnorteada, marchei até a porta e com certa má vontade coloquei a mão no trinco, girei a chave no tambor e torci a maçaneta. Abri a porta, mas não esperava ver o que vi.

- Você? - questionei.

- Quem mais seria? - inquiriu com certo azedume em seu tom.

- Olha, não temos mais nada pra dizer... Acabou, já entendi... - explanei.

- Será que posso entrar? - pesquisou.

- Ok... – autorizei com uma voz de mau humor.

Rapidamente adentrou e parou no centro da sala.

- O que você quer? - indaguei.

Expirou - Ainda me lembro como se fosse ontem do dia em que nos conhecemos, você sempre desatenta... – afirmou, seus olhos estavam desfocados, um sorriso brincou em seus lábios, no entanto durou apenas segundos - Fui um idiota, não deveria ter lhe dito aquelas coisas... Talvez devesse ter percebido antes, mas o caso é que não percebi, ou talvez não quisesse perceber... Estou loucamente apaixonado por ti... Confesso que lutei contra esse sentimento o máximo que pude, todavia não consegui evitar... - desabafou.

- O que você espera que eu diga? Sim! Porque tu me disseste coisas absurdas... Não posso simplesmente apagar da memória tuas palavras... - expliquei.

- Talvez... - iniciou, mas logo se calou.

- Não existe talvez... Como posso acreditar que serás meu porto seguro? – inquiri.

- O destino brincou com nossas vidas... Estamos, querendo ou não, ligados por uma fina linha e a decisão de cortá-la é apenas tua... Não vejo minha vida sem ti... Eu errei! Reconheço que errei e estou aqui para lhe pedir perdão... Me perdoa? – requereu.

- Minha pretensão é te colocar pra fora a pontapés... – suspirei – Mas, não farei isso... – afirmei.

- Por quê? – investigou.

- Talvez esteja cometendo o maior erro da minha vida se o fizer... Suas palavras me feriram, entretanto, é tarde demais para fugir... Estou ligada a você, não tenho mais o controle dos meus sentimentos... A verdade é que te amo... – confessei.

Nesse instante, ele saiu do meio da sala e veio em minha direção. Não tive tempo de reagir, segurou meu rosto entre suas mãos e quando percebi, já estávamos nos beijando loucamente. Era a primeira vez que nos beijávamos, estava totalmente perdida, ou talvez não, porque naquela manhã começamos a escrever nossa história.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

DESESPERANÇA


Qual é o significado de ser sozinha? Desde que ele partiu não existia outra pergunta em minha mente. Será que não posso estar com ele? Essa é a maldita dor que devo suportar? Por que a vida brinca comigo dessa maneira? Mas para nenhuma dessas outras perguntas existia uma resposta, simplesmente a vida segue como se nada tivesse acontecido, como se tudo que vivi não passasse de um belo sonho. Se for assim, agora vivo em um pesadelo e meu maior desejo é acordar! Porém, é a vida real e esse pesadelo não desaparecerá. Olhando pela janela do meu quarto vejo o sol, contudo não há mais sol em meus dias, há apenas uma nuvem negra que insiste em deixá-los sem propósito. Bem, acho que nada pode trazer de volta a alegria que outrora fora roubada, pensei e afundei minha cabeça novamente no travesseiro.

- Sinto tanto a tua falta! – sussurrei.

Finalmente elas apareceram, as lágrimas rolaram pelo meu rosto e o silêncio deu lugar aos soluços que brotavam da minha garganta. Era o som da desesperança. Deitada na minha cama abraçada ao travesseiro, chorei por um longo tempo até que a inconsciência me abraçou e levou-me para um mundo onde a dor não existia.

sábado, 24 de novembro de 2018

CURIOSIDADE


Outra vez doava minha atenção à mesma garota, ainda não entendia bem o motivo, mas sempre me pegava procurando por seu rosto em meio à multidão. Por que tu chamas tanto minha atenção? Como de costume sabia que não encontraria uma resposta honrada, quando conveniente sempre mentia pra mim mesmo. Não obstante, ainda não conseguia tirar os olhos dela, talvez fosse apenas curiosidade, ou... Não! Era por puro acaso que continuava a olhar para o outro lado do pátio e coincidentemente era onde ela estava.

Sua mesa estava cheia de amigos, todos eufóricos com a viagem que aconteceria na semana seguinte, aliás, a escola toda estava comentando sobre o tema. Mas a bela moça não estava nem um pouco interessada no assunto da vez, permanecia abstraída. No que tu estás pensando? Questionei, mas sabia perfeitamente que não encontraria essa resposta apenas a observando.

Por alguns segundos dedicou a atenção à maça em sua mão, concentrando-se em rolar a fruta de lá pra cá e de cá pra lá, mas, tão logo voltou seu rosto para a janela e fitou o dia cinzento. Seus olhos carregavam uma tristeza fora do comum, talvez... Enumerei várias possibilidades, era apenas uma tola tentativa de acalmar minha curiosidade. Ambicionei ir até lá e falar com ela. Mas o que diria? Nesse instante imaginei a cena, mas em seguida sacudi a cabeça para tirar a alucinação de foco.

A garota que estava sentada ao lado cutucou-a, instantaneamente desviei o olhar. Contei um minuto, então voltei meus olhos à moça. Um sorriso pintava sua expressão, ganhei um martelo em meu peito, porém logo se diluiu. Virou o rosto novamente para a janela, segundos depois seus olhos ficaram fora de foco. Percebi que não tinha ferido a maça, antes pelo contrário, ainda brincava com a fruta em sua mão. Será que ninguém a ensinou que não se deve brincar com comida? Ai estava a minha deixa, vou falar com ela. Nesse momento reuni toda a coragem que encontrei dentro de mim, respirei fundo e então levantei.

- Aonde você vai? – meu colega perguntou confuso.

- Vou falar com alguém... Volto logo! – informei.

Enchi mais uma vez meu pulmão de ar e segui a passos acanhados rumo à mesa dela, mas no meio do caminho outro colega me brecou. Isso fez com que minha coragem ficasse anêmica, entretanto não recuei. Seja corajoso! Repetia para mim mesmo a cada novo passo.

De repente o sinal tocou, instintivamente travei no lugar. A garota dona da minha atenção deu um pulo da cadeira e derrubou a maça na mesa. Reativamente se pôs em pé e andou a passos largos na direção das escadas, não esperou por suas amigas. Observei-a até que sumisse de vista.

Droga! Essa é a segunda vez! Não haverá uma terceira! – prometi a mim mesmo e então segui mal-humorado para a sala.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

PONTO FINAL


Então, dei as costas para tudo o que ele já representou na minha vida. Esse será nosso último adeus. Não haverá volta. Meus olhos se fecharam assim que abri a porta do carro. As lágrimas rolaram preguiçosamente por minhas bochechas enquanto tentava aplacar a dor em meu peito.

Ainda podia vê-lo do outro lado do estacionamento, totalmente perdido, catatônico. Ontem era um passado muito distante, nada poderia mudar o agora. Ele sabia disso tanto quanto eu. Afinal, essa não é mais uma briga. Chegamos ao fim da linha. O jogo acabou.

Girei a chave na ignição e esperei o motor vir à vida. Logo, coloquei o carro em marcha e observei pelo retrovisor meu passado se afastar lentamente. Eu o amei com todas as minhas forças, entretanto, agora é hora de dizer adeus.


terça-feira, 20 de novembro de 2018

RENDIÇÃO


- Eu não mereço isso! – disse enquanto tirava a aliança e colocava sobre o criado mudo, a essa altura não tinha mais forças para brigar.

- Você não merece isso? Não! Não acredito que estou ouvindo isso! Por que casou comigo então? Se não sou o que você merece! Poupe-me de ouvir essas besteiras! – gritou e saiu pela porta do nosso quarto.

Depois de ter ouvido tudo aquilo minha reação foi ir em direção ao armário. Peguei minha mala e comecei a colocar minhas roupas nela, contudo as lágrimas me cegaram e as palavras que ele pronunciou ainda escoavam em meus ouvidos. Por que terminar dessa forma? Eu ainda o amo! Isso não é suficiente? Quando nosso casamento começou a ruir? Não encontrei as respostas para essas perguntas, tampouco consegui parar de chorar. A noite se seguiu assim, enquanto arrumava minha mala, as lágrimas não me abandonaram.

- Você vai embora? – perguntou com uma voz calma, mas com uma pitada de preocupação.

Isso me assustou, mas não me virei para enfrentá-lo - Vou! Você não me deixou escolha! – respondi com a voz esganiçada.

- E se...

- E se o que? Você já deixou claro que não me ama mais! – proferi algo que guardava há algum tempo e pela primeira vez em cinco anos me senti livre por dizer a verdade.

- Quando começamos a nos odiar? – perguntou em um tom de choro.

Virei-me para encará-lo e me deparei com uma cena da qual nunca havia visto antes, ele estava chorando – Quem disse que te odeio? – perguntei.

- Quem disse que deixei de te amar?

Não consegui encontrar minha voz para responder aquela pergunta, só consegui chorar. Ele cruzou o quarto e foi até onde eu estava.

- Não consigo definir minha vida sem você! Sinceramente acreditei que poderia, mas quando te vi arrumar as malas... Não vá! Perdoe-me... Tenho sido um idiota, não é tua culpa. Você vive se preocupando comigo e eu só tenho lhe tratado da pior forma possível... – disse entre lágrimas.

- Eu nunca te odiei... – falei entre soluços, mas antes que pudesse terminar ele bloqueou os meus lábios com o dedo indicador.

- Hey... Vamos parar de falar... Chega! As palavras nos feriram muito, talvez fosse melhor evitá-las! – propôs e tirou seu dedo da minha boca para colocar uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.

- Ok! – concordei.

Ele sorriu um sorriso torto, algo que não via já há algum tempo e antes que mais alguma palavra fosse dita, me beijou, fui pega de surpresa, não era algo que esperava, mas gostei. Naquela manhã não dissemos mais nenhuma palavra, apenas nos comunicamos por olhares. Tínhamos dito muitas coisas que nos afastaram na noite anterior, mas agora tudo não passava apenas de um passado bem distante e era assim que tudo ficaria, passado no passado, presente no presente e futuro no futuro.

domingo, 18 de novembro de 2018

DOMINGO INSUSPEITO


Era apenas outro domingo de primavera e eu caminhava pelo parque que há anos era o meu maior companheiro. Conhecia cada centímetro deste lugar, mas havia um motivo especifico pelo qual voltei aqui esta manhã. No entanto, ninguém que estava a minha volta suspeitava de algo, como poderiam? Caminhei até a árvore que nos ofereceu sua sombra. Onde ele estava? Questionei-me algumas vezes. Todavia, não sabia a resposta para essa pergunta. Tudo o que sabia é que ontem nos beijamos até o sol incomodar nossos olhos e nossa noite foi inacreditável, mas esta manhã acordei e ele não estava mais ao meu lado. Ele havia desaparecido! Gostaria de saber para onde ele teria ido, mas não havia nenhuma pista. Comecei a lembrar de cada momento de ontem, fiquei ali por um bom tempo, lembrando de cada toque, gesto, sensação... De repente alguém vendou meus olhos com as mãos.

- Você me parece tão suspeita! – sussurrou no meu ouvido.

Meus lábios se transformaram em um sorriso e minhas mãos foram em direção as dele. Parecia um sonho maluco, mas era real demais para ser um sonho. Ele me virou para encará-lo e antes que alguma palavra saísse da minha boca, me beijou. Naquele momento meu coração estava a ponto de sair pela boca. Queria odiá-lo, mas o único sentimento que experimentava era uma paixão arredia que corria por minhas veias. Então desejei que existissem mais domingos insuspeitos, assim como hoje.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

ELE


Fecho os olhos e vejo teu sorriso...
Hoje foi um dia incrível...
Realmente...
Me fez viva outra vez...
Agora sigo com meu sorriso abobalhado pela rua...

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

PENUMBRA


O sol desponta no horizonte, todavia não quero encontrá-lo. Aos poucos a escuridão vai dando lugar a luz, contudo não quero o amanhecer. Uma lágrima toca o lábio superior, enquanto a respiração ofegante revela o desespero. Furtem estes pensamentos, implorei, mas nada aconteceu. Então, em mais uma atitude desesperada mergulhei fundo no oceano da fantasia.

Ali, tu estavas ao me lado, porém isso não durou. Logo, estava de volta a realidade.

- Por que, por que, por que! – gritei.

Preciso formatar minha mente, mas isso parece impossível. Enfrentar a verdade não é uma tarefa fácil, contudo é preciso. Irei saborear de todas as formas a dor, antes de me aproximar da janela. Então, encarar o céu em todos os tons de azul será simples, visto que a angustia não se fará mais presente. Entretanto, por agora, só desejo a penumbra.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

SILÊNCIO


Olhando dentro dos teus olhos, procuro bem mais que respostas, tento encontrar questionamentos. Ainda me observas sem verbalizar qualquer pensamento, busca em minhas janelas a única certeza que não posso dar. Suspirei, então rolaram por minha face às gotículas fofoqueiras. As sobrancelhas se cumprimentaram, teu analisar ganhou uma interrogação. Com a ponta do dedo indicador removi as intrusas, havia um nó na minha garganta, contudo não tinha força de tagarelar sobre algum sentimento. A mão esquerda tocou meu rosto com doçura, teus dedos subiram e colocaram uma mecha de cabelo atrás da orelha. Abaixei a cabeça e deixei que os soluços expulsassem o silêncio, perdi a comunicação com teus olhos naquele instante.

- O que está acontecendo? Por que as lágrimas? – investigou aflito.

Meus lábios não se moveram um milímetro sequer, apenas elevei a face e te encarei. A resposta estava ali, clara como o dia. Suspirou, então foi sua vez de esquivar os olhos dos meus.

- Desculpe, mas não posso viver uma mentira... Faça a tua escolha... – articulei com a voz tremula, enquanto me levantava.

- Espera! Ouça o que tenho a lhe dizer... – pediu.

Expirei e me sentei novamente.

- Não conseguirei nutrir qualquer sentimento de ódio contra ti, pois minha vida é tua... Fiz minha escolha ontem à noite... Vou lutar pelo nosso casamento, custe o que custar... – falou decididamente, mas com uma pitada de sentimentalismo.

- Eu preciso de você... – confessei.

- Sei que precisa... – afirmou e um sorriso confeitou-lhe a expressão.

Então, os olhos se calaram para dar lugar às atitudes.

sábado, 10 de novembro de 2018

NUNCA MAIS


Eram oito e meia da manhã quando a campainha tocou pela terceira vez, a essa altura já havia dito um bocado de palavras mal criadas. Enrolei a toalha pelo corpo, enquanto caminhava apressadamente até a porta. Girei a chave no tambor e torci a maçaneta, tirei o pedaço de madeira da minha frente segundos depois.

- Você? – indaguei com uma sobrancelha arqueada.

- Nós precisamos conversar... – afirmou com uma pitada de desespero em seu tom.

- Não! Não há mais nada para ser dito... – relembrei-o, então bati a porta, mas suas mãos a seguraram.

- Me deixa entrar! – implorou.

- Pra que? – investiguei.

- Por favor... – suplicou.

Dei um passo para trás e fiz sinal para que entrasse. Caminhou a passos largos para dentro do apartamento, enquanto eu fechava a porta.

- Ok! Qual o assunto tão importante? – inquiri impacientemente.

- Eu estava confuso, por isso cometi o maior erro da minha vida... – articulou timidamente.

- Hum... Qual? – perguntei ironicamente.

- Te deixar! – falou com a voz recheada de remorso.

- Ah! Agora tu vens falar que estava confuso... – ponderei entre risos – Sinto te informar, mas não estou interessada em saber o que se passa pela tua cabeça... - afirmei sarcasticamente.

- Como? – perguntou confuso.

- É isso mesmo que ouviu... Não quero saber! – expliquei.

- Mas... – começou, contudo brecou.

- Não te desejo o mal, todavia não lhe desejo o bem... Só quero que saia da minha vida! – explanei calmamente.

- Eu ainda te amo! – revelou desesperadamente.

- No entanto, eu não! – disse com um sorriso torto

- Anita! Seja razoável, pense em tudo o que vivemos juntos... – pediu com uma pitada de esperança.

- Não há boas lembranças, Victor! Apenas me esqueça! – falei friamente.

- Você não sabe o inferno que estou passando... – falou com a voz embargada.

- Sei perfeitamente... Você ainda pensa em mim quando está com ela, ainda sonha comigo...
Contudo, nunca mais me terá!
– assegurei.

- No que você se transformou? – indagou assustado.

Sorri – Desfrute bem o néctar da dor! – sugeri.

- Você é um monstro! – articulou enraivecido.

Então, deu as costas e saiu pela porta em fúria bárbara.

- Graças a você! – proferi entre risos.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

ALTERNATIVA


Talvez não necessitasse estar aqui, todavia era exatamente onde queria estar. Seus braços me envolviam, meu coração martelava. Milhões de dúvidas alfinetavam minha mente, enquanto meus dedos brincavam em suas costas. Desejei parar, contudo algo me impedia. Logo, o medo subiu ao trono. Nesse momento, só consegui pensar na nossa amizade e no risco de perdê-la. Suspirei algumas vezes, balanceei todos os meus pudores, contudo não consegui chegar a qualquer resultado plausível. De repente, seus dedos organizaram meus cabelos, perdi a linha de raciocínio naquele segundo. Meus olhos permaneceram fechados, o medo inflava. Entretanto, antes que o instinto falasse mais alto, seus lábios tocaram os meus.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

ENTREGA


Alegorias são perfeitamente supérfluos esta noite, rememorei enquanto suas mãos me acariciavam. Ainda sentia o perfume dele, porém era você que me afagava. Seus lábios roçavam minha pele, enquanto minha mente o imaginava. Uma lágrima singela tocou o canto da minha boca, entretanto sufoquei o soluço. Seus dedos removeram os pedaços de pano que nos separavam, nesse instante senti nojo de mim mesma. Logo, pude ouvir sua respiração descompassada, contudo nem mesmo um arrepio cruzou meu corpo quando desfaleceu de prazer. Naquele quarto, me entreguei a você, todavia meu pensamento estava nele. Cada segundo, era dele.

domingo, 4 de novembro de 2018

DESCUIDADOS


Estendeu tua mão para mim, era outro pedido velado. Não foram necessárias palavras, visto que, compreendi de pronto o que estava ocorrendo. Agarrei tua mão, enquanto levantava o rosto para te afrontar. Um questionamento alfinetou meus neurônios, contudo dei de ombros.

Conduziu-me até a pista de dança, mas ainda não havia vocábulos. A música se despedia, porém outra assumia o palco. Segurou minha cintura com a mesma ternura de outrora, então nossos olhos, finalmente, se encontraram. O sorriso singelo que desabrochou na minha face revelou os sentimentos, em seguida, teus olhos fugiram dos meus. A melodia nos tragou, éramos os únicos a dançar. Tua respiração era descompassada, teus olhos continuavam a evasão. Pude experimentar o sabor da dor, afinal a verdade é impiedosa.

- Nunca fui uma tola... Sempre soube onde estava pisando... – sussurrei ao teu ouvido.

- Eu sei... No entanto, deveria ter sido mais cuidadoso... – lamentou.

Elevei o troco na tua direção, apoiando a ponta dos pés no chão. Delicadamente, beijei-lhe a face. Instantaneamente, uma lágrima cruzou minha bochecha. Ouvi sua respiração desafinar, tuas mãos apertaram minha cintura. Então, desci os calcanhares e dei dois passos para trás. Agonia; foi tudo o que li em teus olhos. Um nó se formou na minha traqueia, era difícil até respirar. Pintei em meus traços o belo sorriso de tempos atrás, mas antes que borrasse, me virei e sai pela tangente.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

VESPEIRO


Teus olhos me fitavam com a mesma inquietação de outrora. Era tarde, mas você se recusava a ir. Claro, estava escrito na minha testa que havia algo errado, porém fugi do assunto a noite toda. Tu suspiraste pela milésima vez, impaciência e preocupação se mesclavam.

- Me diz o que há contigo! – exclamou pela terceira vez.

 - Já disse que é melhor não mexer neste vespeiro! – rebati com certa ira.

- Inferno! – praguejou.

- Por que queres saber o que se passa comigo? – indaguei.

- És minha amiga... Importo-me contigo! – respondeu.

- E como podes ser tão cego? – provoquei.

- Como assim? – perguntou confuso.

- Não vês que por trás de dez abraços, existem mil beijos de amor. Todos direcionados a você! – salientei.

- Você está louca? – inquiriu.

- Quer saber? Acho que estou... E sinceramente, me dê um tempo e deixe-me respirar... – pedi.

- Tempo? Por quê? – pesquisou.

- Tudo está mudando tão rápido que eu não consigo controlar! Você é um bobo! Eu já não suporto sua timidez, tampouco esse jeito de bom moço, além é claro de toda essa sensatez absurda. – ataquei.

- Quer dizer que eu sou o culpada? – concluiu.

- Se você diz... O que sei é que perdi tempo demais tentando entender e buscando me enganar. Se por um lado nós somos amigos, pelo outro nós somos o que? – averiguei.

As palavras se esgotaram, então o silêncio ficou insuportável. Uma lágrima singela beijou meu lábio superior, enquanto minha respiração aliviava o coração.

- Vejo que nada vai mudar... Mas não vou ficar aqui esperando que tome qualquer decisão... Minha vida não deve parar, portanto se quiser ficar com o pé em duas canoas... Sinta-se a vontade! – afirmei com ironia.

- O que vais fazer? – investigou curioso.

- Espere e verás... Ah! Não te esqueças que a realidade se transforma a cada nascer do sol... – explanei calidamente.

Então lhe dei as costas e segui na direção oposta.

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