Discutível Perfeição: Outubro 2018

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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

VIAGEM


Ainda estou sozinha no quarto, enquanto lembranças, momentos, desejos, me assombram. Porém, chegou à hora de colocar um ponto final nestas pendências. Existem cadáveres que devem ser enterrados, enquanto há tempo. Portanto, estou assumindo o volante. A loucura me aguarda na próxima esquina e apesar de não ter ideia de pra onde vamos, estou ansiosa o suficiente para descobrir.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

DESÍGNIO


Encaro-me no espelho, enquanto algumas lágrimas correm pelo rosto. Não posso continuar sufocando meus sentimentos por medo, a verdade sempre foi minha bebida favorita, entretanto agora não consigo entorná-la. Covardemente, me encontro no mesmo ponto de outrora, todavia não repetirei erros antigos, afinal não devo regredir. Talvez me falte maturidade, contudo prefiro me arrepender de algo feito. Escolho viver histórias reais, a carreira solo. Limpidamente, memórias invadiram minha mente e antes que mais lágrimas rolassem bochecha a baixo, sequei as gotas salgadas já existentes, respirei fundo e alimentei a fagulha de coragem. O fogo cresceu, invadindo cada centímetro do meu corpo, então sem pensar, dei as costas para o espelho.

sábado, 27 de outubro de 2018

INDAGAÇÕES


O sol se escondeu no horizonte, porém a indagação dissimulada persistia. Meus lábios se contorciam em um sorriso frenético, enquanto as mãos denunciavam a ansiedade. A brisa que acarinhava teus cabelos, bagunçava os meus.

- Posso ler teus pensamentos? - averiguou em um tom de provocação.

- É possível? - retruquei.

- Sim, sim! Quer que eu te prove? - ofereceu.

- E o que vou ganhar com isso? - contrapus.

- Confias em mim? - pesquisou.

- Deverias? - duvidei.

- Ahh... Isso, só tu podes me dizer! – explicou amuado.

- Hummm... Ok! – respondi ironicamente.

Aproximei-me dele, rocando meu nariz em seu pescoço.

- Você está perdendo a noção do perigo... – sussurrou com certa apreensão.

- E qual é a noção do perigo? - inquiri.

Respirou fundo, segundos se transformaram em horas, notei que ele estava tentando se controlar. Contudo, a essa altura do campeonato, estava enfadada de tantos questionamentos e provocações. Porém não queria forçar nada, então comecei a me afastar. Todavia, não foram necessários mais do que dez centímetros de distância para que o controle fosse totalmente perdido.

Seus olhos encontraram os meus, estava claro como o dia teus objetivos. Um arrepio me fez encolher, mas não retroceder. Lentamente, aproximou seus lábios dos meus, os bloqueando segundos depois. Nenhum outro questionamento foi proferido, afinal de contas, as respostas estavam no silêncio.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

OUTRA VEZ


Olhando para o teto do quarto, ainda com as mesmas indagações, minhas mãos insistiam em agarrar os travesseiros. Lágrimas silenciosas desfilavam pelas bochechas, enquanto me afundava em desespero.

Ouvi passos, então me alinhei e sequei as gotículas tímidas.

- Hey! O que há contigo?

- Nada... - respondi com a voz embargada.

- Quem nada é peixe... - falou divertidamente - Seus olhos não mentem... O que há de errado? - insistiu.

- Quanto tempo isso vai durar? - inquiri.

- Isso o que? - rebateu.

- Sempre acreditei na razão... Então, como posso explicar esse sentimento?

- Sentimentos não devem ser explicados... Do contrário, que graça haveria? - explanou com um sorriso singelo.

- Estou com medo... De repente, tudo está diferente... Por você, faria tudo outra vez sem medir as consequências... Entretanto, como isso pode ser certo?

- Quem poderia me dizer que um dia tão horrível, poderia se tornar tão adorável? - articulou docemente.

- Não seja bobo... A realidade está ali fora, apenas nos aguardando... Logo, tudo isso será apenas uma bela lembrança... - retruquei.

- Quanto pessimismo! - declarou.

- Não é pessimis... - antes que eu terminasse a frase, me beijou.

Em instantes, estava submersa em um mar de emoções. Deixei o desejo imperar, então as ações assumiram o lugar das palavras. Entretanto, bem lá no fundo, o medo continuava provocando indagações desprovidas de respostas lógicas.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

NOSTALGIA


Segredei outra vez ao travesseiro, nesse momento, me dei conta de que era apenas mais um devaneio. O ar de silêncio no quarto me consumiu feito brasa. Rolei para a beirada da cama e caminhei preguiçosamente em direção a janela, o chão gélido apagou a flama suavemente. Tão logo felicitei a noite fria. Pude ouvir a discreta algazarra do vento em minha mente, ao mesmo tempo, a epiderme se deliciava com a brisa. Quis fantasiar novamente, todavia me contive. Está tudo acabado! Acostume-se a isso, rememorei. Uma lágrima tocou o lábio superior, enquanto os pés tomavam o curso da cama. Assim que meu corpo se chocou com o colchão, uma pergunta me alfinetou, porém a trancafiei em uma das gavetas. Em seguida, embrulhei-me nos cobertores, fechei os olhos e alcei vôo.

domingo, 21 de outubro de 2018

INCONSCIENTE


Na minha realidade alternativa, tu ainda fazes parte dos meus sonhos. Ali somos apenas eu e você, sem os nós, vivendo uma vida recheada de alegrias e sentimento. Seus braços são meu porto seguro, seus olhos minha verdade, seu carinho meu calmante, seus beijos minha droga, seus afagos meu descontrole. Cada segundo ao seu lado é incrivelmente intenso, todavia irreal, pois ao amanhecer desmorono no fato de que não passamos de perfeitos estranhos.

Por mais que eu negue, a verdade é que ainda te amo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

CLAMOR


Ajoelhei ao lado da cama e comecei a chorar. Soluços furiosos foram vomitados da garganta, enquanto uma dor terrível me fazia ser a menor das pessoas. Logo, gritos eclodiram e invadiram o ambiente calmo, a tempestade se estabelecia. Minutos de loucura e desespero se seguiram infindáveis. Entretanto, após um tempo as lágrimas foram secando, os soluços acalmando, os gritos finalmente cessaram e a dor já não era tão latente.

Nesse instante, elevei meus olhos para o teto.

- O Senhor entendeu tudo, não foi?! – um sorriso discreto brincou nos meus lábios – Sei que sim... – sussurrei.

Abaixei a cabeça e apoiei as mãos no colchão e num impulso me pus em eixo.

- Agora posso dormir... Boa noite, Papai!!! – disse com a voz repleta de carinho.

Então, ajeitei meus travesseiros e finalmente me deitei.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

INESPERADO


Quem és tu neste exato momento? Pergunto-me pela milésima vez, exatamente às três e quarenta e dois da manhã, com toda certeza é outra noite de insônia. Ainda não consigo enterrar as lembranças, porque ainda me importo contigo.

Sirvo-me de outra dose de uísque, era a quinta ou décima, acho que parei de contar depois da terceira, mas isso não importa. Tento encontrar solução para o vazio dentro de mim, porém sem sucesso, então bebo. Balanço o copo cheio de bebida enquanto me perco em meio às lembranças.

Uma ira tomou conta do meu ser, instintivamente arremessei o copo para longe.

- Por que você fez isso? Quanto tempo vou continuar nesse inferno? Hein?! Olha pra mim! Sou um monte de nada! – gritei e então desabei no chão.

Lágrimas quentes correram pela minha face enquanto o desespero me abraçava. Soluços audíveis brotaram da minha garganta. Estou presa a momentos que não foram feitos para durar, tudo já foi dito, mas ainda não há sinal de ti. O adeus chegou cedo, trazendo a loucura consigo. Agora só lembro-me de todas as falsas promessas, juras que jamais serão cumpridas.

- Não precisava ser assim... – sussurrei.

Então me agarrei a pouca força e me pus em pé, entretanto colidi com o chão novamente segundos depois. Esmurrei o piso frio três vezes, tudo a minha volta dançava ciranda.

O telefone tocou... Dez vezes. Muito a contra gosto, me arrastei até a mesinha no canto da sala.

- Alô... - finalmente atendi.

- Lydia?! – averiguou.

- Sou eu... – respondi com dificuldade.

- É o Roberto... – falou com a voz repleta de tensão – Tenho uma má notícia... – revelou.

- O que houve? – investiguei.

- É o Daniel... Bem, ele sofreu um acidente esta noite... – contou.

- Ele está bem? – perguntei com urgência.

- Lydia... Ele faleceu! – balbuciou entre lágrimas e soluços.

Nesse instante tudo perdeu a cor, a inconsciência me tomou assim que o fone encontrou o chão.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

ESCOLHAS


Engraçado... Chega até ser irônico. Meses depois, ainda não tenho a porra da resposta pra minha pergunta. Então, continuo seguindo como se nada faltasse na minha vida, mas na verdade falta.

Nós éramos amigos. Sim! O verbo está no passado, assim como a nossa amizade. No entanto, sabe qual é a merda nisso tudo? Exatamente, palmas pra você!

AINDA SINTO SUA FALTA!

Portanto, o que devo fazer? Afinal, é estranho escrever algo sobre alguém que nunca mais vai voltar. Ou vai?

Sinceramente, essa merda toda continua na minha mente e apesar do tempo, sinto como se faltasse algo, alguém.

Oh sim! Eu segui com a minha vida, continuei desejando e sonhando alto. Todavia, isso não me impede de sentir sua falta. Yep! Eu galguei degraus importantes nos últimos dois anos e em cada porra de conquista, tudo o que eu queria era compartilhar com você. Porém, você não estava lá, não é mesmo?

Não sei o que aconteceu com sua cabeça. Um prêmio para quem me disser que porra eu fiz pra te perder. Fizemos merda juntos, muita merda na verdade. No entanto, ainda éramos amigos.

Mas, agora tudo é diferente, não é?

Nós crescemos, amadurecemos e juntos destruímos nossa amizade.

Se eu soubesse da merda que faríamos, teria feito tudo diferente.

Entretanto, a merda está feita e hoje nos tratamos como meros desconhecidos. Somos apenas pessoas seguindo por um caminho qualquer. Todavia, algum dia ainda vamos nos atropelar.

E então, o que escolheremos?

sábado, 13 de outubro de 2018

AUDÁCIA


Observando a imensidão do rio, pensamentos se inquietam. A brisa sussurra nos ouvidos, enquanto lágrimas quentes decoram a face. Nada é como antes, não é mesmo? Questiono com uma das sobrancelhas arqueadas. Nesse instante, sonhos se desenharam e novos planos se formaram. É hora de tomar atitudes, afinal não sou mais quem um dia costumava ser.

- Respire fundo! - comandei.

Então, dei alguns passos pra trás e corri em direção à água.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

DESAPARECER


Essa dor não pode ser explicada, tampouco compreendida. Vivo cada dia como se não fosse haver qualquer outro, as esperanças se foram. Afinal, sonhar pra que? Sei que meus sonhos são motivos de piada. Quero apenas desligar, poder acordar e ir dormir sem pensar em mais nada. Ligar o automático! Fazer tudo por pura rotina. Não sou merecedora de nada, apenas sinto culpa de não poder livrar as pessoas da minha convivência. Culpada, é assim que me classifico. Quero um tempo longe, um tempo meu, um tempo pra desaparecer. Como fumaça, antes que alguém tente me convencer do contrário.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

ACORDADA


Eu estou acordada. É complicado admitir, mas o fato é que me encantei pela paisagem. Agora meus olhos foram abertos, portanto posso ver os fios de controle que lançaste sobre mim. Não! Eu não vou ser controlada por alguém que não sabe quem realmente sou.

Oh! Você ainda está se perguntando se vou mesmo embora?! Bem... Pode parecer meio complexo para você, mas a resposta para essa dúvida gigantesca sobre sua cabeça é sim, eu estou te deixando, esta noite e não... Eu não vou olhar para trás.

Afinal, uma garota como eu não pode se torturar por um erro. Sim, eu acreditei em cada mentira que saiu dos seus lábios. Contudo, não sou obrigada a continuar em um lugar onde a única pessoa que acreditei ser confiável, me traiu. Portanto, estou saindo por aquela porta.

Ah! E não precisa vir atrás de mim... Porque esse é o fim, querido.

domingo, 7 de outubro de 2018

O SEGREDO DA VIDA


... Eu estava em uma grande biblioteca com estantes enormes a minha volta e mesas de madeira espalhadas pela sala, mas esse lugar estava vazio exceto apenas por uma bibliotecária que ficava em um balcão no fim de um longo corredor. Percebi que estava segurando um livro, levantei minha mão e o analisei. Na sua capa em letras garrafais estava escrito “Descobrindo o Segredo da Vida” só o que me faltava! Agora tenho que ler esse livro idiota, pensei. Recuso-me! Não vou ler nenhum livrinho de auto-ajuda. Pensei em deixá-lo em uma das mesas de madeira, mas depois tive dó da bibliotecária. Ela teria que colocá-lo de volta no lugar. Talvez fosse mais cortez deixá-lo no balcão. Andei calmamente pelo corredor, assim que cheguei próximo o suficiente o coloquei no balcão e sai rumo à porta.

- Querida! – chamou a senhora com uma voz doce e baixa.

Virei-me para encará-la e respondi – Sim!

- Acredito que você ainda não leu este livro, correto?

- Correto! Eu ainda não li e nem quero ler – expliquei.

- Sinto muito! Mas esse livro não é uma questão de escolha, você precisa ler.

Andei alguns passos em direção a ela – Como assim!? – perguntei confusa.

- Você desejou ler este livro. Não há como voltar atrás.

- Eu... Desejei... Ler... Esse livro? – perguntei gaguejando e apontei para o livro.

- Sim! – respondeu com um sorriso.

- Acho que está havendo algum engano...

- Não há enganos aqui Manuela!

- Como você sabe meu nome? – perguntei com os olhos arregalados.

- Eu simplesmente sei... Agora, porque não o leva... – sugeriu e apontou para o livro ainda no balcão.

- Desculpe, mas não irei ler – disse em tom de deboche.

- Querida, qual foi teu ultimo desejo?

- M... – hesitei - Morrer... – declarei com uma voz cheia de vergonha.

- Maravilha! Então... Não há engano! Você precisa ler o livro...

- Mas...

- Céus! Vocês são tão difíceis... Vivem resistindo...

- Por favor, me fale algo que tenha sentido... – implorei.

- Ok... – concordou com um sorriso – Você chegou a uma encruzilhada e optou por um caminho do qual poucos escolhem, muitos sofrem, mas apesar disso continuam naquela velha ideia de viver a qualquer custo. Mas você optou pelo caminho oposto...

- Morrer! – conclui.

- Isso! E quando isso acontece finalmente você começa a aprender...

- Aprender o que?

- A viver!

- Ah!?

- Querida! Quando você deseja morrer, não fisicamente é claro, mas da maneira como tu desejaste, é nesse momento que você começa a viver. Pois sua visão da vida muda, tudo que você fazia perde o sentido. Por que você desviou a atenção de algo extremamente estressante, que é teimar em viver mesmo não sabendo como.

- Quer dizer que quando desejamos morrer aprendemos a viver?

- Sim! Muitos não entendem o porquê de doentes terminais em camas de hospitais viverem sorrindo... Mas a resposta é simples, eles passaram a ver a morte com única certeza... A cada dia eles vivem como o ultimo e assim aprendem o real significado de viver, que nada mais é do que ser realista e acreditar que por pior que seja esse dia você já passou por coisas piores. Você começa a sorrir e aproveita cada momento do teu dia de uma maneira excepcional. É como se você morresse a cada dia e renasce no dia seguinte com a mesma fé e alegria de antes. Sei que parece confuso, mas acredito que você compreenderá no momento certo.

- Sim! Acho que compreendo!

- Maravilha! – pegou o livro de cima do balcão e me entregou, mas antes que pudesse agradecê-la - Agora é hora de acordar! – disse em alto e bom som.


Acordei assustada, com o eco da voz da bibliotecária. A luz do meu quarto ainda estava acesa. Que horas são? Olhei no relógio e vi marcado três e meia da manhã, afundei minha cabeça de novo no travesseiro. O que foi tudo isso? Perguntei para mim mesma. Mas a única coisa que me lembrava era das palavras da doce senhora em meu sonho. Talvez agora algo fizesse sentido, ficamos tão focados em viver que nos esquecemos de viver e quando finalmente não vemos mais saída desejamos a morte, mas é nesse momento que descobrimos o segredo. Comecei a sorrir feito boba, acabara de descobrir o segredo da vida. Levantei da cama e fui até a minha janela, a abri e saudei a lua como nunca havia feito antes. Apesar de estar triste finalmente consegui ver algo que mesmo sem sentido fazia algum sentido. Continuei ali na janela observando a noite e aguardando o novo dia nascer para que eu renascesse com ele.

Imagem: paranoias.org

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A CAIXINHA


Por que tínhamos que nos mudar? Perguntava para mim mesma pela centésima vez. Não queria me mudar, amo esta cidade, amo meus amigos, amo a minha vida! Simplesmente é uma ideia inaceitável! Mas como minha opinião não conta muito, tenho que aceitar mesmo não gostando nem um pouquinho. Também odiava ter que encaixotar tudo, tenho certeza que vou ficar como uma barata tonta tentando achar minhas coisas pelos próximos três meses. Acho que foi para tentar evitar meu sofrimento, não sou nem um pouco masoquista, que disse para minha mãe que eu mesma arrumaria e empacotaria tudo. Contudo essa ideia já não era tão boa assim, não conseguia ver mais a minha própria cama. Realmente o meu quarto estava um caos!

Enquanto retirava minhas roupas do armário me deparei com uma caixinha que há muito tempo não via, estava escondida atrás das minhas roupas de inverno, as quais raramente usava. Sentei-me no chão, em meio ao caos e a retirei de dentro do guarda-roupa. Fiquei olhando para aquela pequena caixa em minhas mãos e lágrimas começaram a correr pelo meu rosto, saiba que abri-la seria como desenterrar o passado, mas mesmo assim a abri. Por alguns segundo meus olhos fitaram o conteúdo da tal caixinha, levei minha mão para retirar um monte de fotos de amigos, cartas, papéis de bombons, cartões postais de lugares desconhecidos, uma fita vermelha, folhetos de lugares conhecidos... Coisas que traziam as mais doces recordações de momentos que nunca mais voltariam. Enquanto me lembrava de cada doce ocasião que a vida me deu, senti um aperto no meu peito, algo que nunca tinha sentido antes. Talvez não fosse uma boa ideia ter aberto essa caixa, mas se não a abrisse nunca lembraria que já fui feliz. Aquela dor estava me incomodando, por que estou me sentindo assim? Abracei-me para tentar fazer aquela dor desconhecida passar, mas ela continuou lá. Olhei novamente para aquela caixinha que trazia tantas lembranças e um papel dobrado de cor amarelada me chamou a atenção, instantaneamente levei minha mão para pega-lo. O analisei cuidadosamente e a curiosidade me inundou, hesitei, mas o abri. Li atentamente aqueles versos que diziam:

“Um dia em tua vida...
Você se lembrará deste lugar...
Das pessoas que um dia você conheceu...
Tudo vai estar diferente do que era...
E então um aperto em teu peito vai te fazer chorar...
E você saberá que tudo foi real...
Por que esse aperto é o sentimento mais puro que alguém pode sentir...
Saudade...
É esse sentimento que te faz chorar!”

Meus lábios se transformaram em um sorriso, finalmente entendi o que estava sentindo, mas mais do que isso, sabia que tudo tinha sido real. A dor continuou ali, mas agora não me incomodava mais.

Imagem: Sonia Bifulco Découpage

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

IMPULSO


Estava deitada de barriga pra cima no jardim murmurando a música que os fones lançavam nos meus ouvidos. Já estava quase inconsciente quando percebi alguém mexer nos meus cabelos, era um toque suave e carinhoso. Enquanto voltava a consciência senti uma mão deslizar da minha bochecha até a minha orelha onde delicadamente ela retirou um dos fones, naquele momento pude ouvir sua respiração - Eu sei que você está acordada! – aquela voz em meus ouvidos fez um arrepio correr pelo meu corpo.

Abri os olhos e vi aqueles olhos cor de amêndoas me analisando, meus lábios se transformaram em um sorriso, mas a expressão dele continuou a mesma. Algo estava errado, franzi minhas sobrancelhas e perguntei - O que houve? Aconteceu algo?

- Não aconteceu nada! Apenas estava pensando que... – sua voz estava estranha.

- Que...

- Deixa pra lá, são apenas bobagens! – disse de uma maneira esquisita, algo estava muito errado, podia sentir isso...

- Que tipo de bobagens? Posso saber? – perguntei e levantei uma das sobrancelhas.

- Não! Quer dizer... São apenas bobagens! – sua voz estava esganiçada.

- Então agora você decidiu esconder as coisas de mim! Maravilha! – disse irritada.

- Não é isso Amanda!

- Então o que é?

Ele não me respondeu, apenas suspirou e fechou os olhos. Sentei-me e segurei firme em seu rosto – Rodrigo? Olha pra mim! – ordenei, mas não me obedeceu. Naquele instante um impulso me dominou e aproximei meus lábios dos dele, talvez esse fosse o maior erro da minha vida, então hesitei, contudo não resisti e o beijei. Ele vacilou, mas logo se rendeu. Milhões de emoções me invadiram, queria que esse momento não terminasse, no entanto tudo tem um fim e dessa vez não foi diferente. Quando nossas bocas se separaram abri os olhos e o observei, em seu rosto era nítida a confusão e surpresa.

- Por que você fez isso?

- Ah... – debati comigo mesma se deveria dizer a verdade ou não.

- Amanda! Por que você fez isso?

- Porque descobri que não posso mais ser só sua amiga, eu amo você! – confessei e desviei meus olhos dos dele.

- Você me ama? – perguntou confuso.

- Você é surdo? – perguntei ironicamente.

- Não, eu não sou! Você ainda quer saber no que estava pensando? – perguntou.

- Não! – respondi rudemente e cruzei meus braços.

- Eu estava pensando em você! Descobri que quero você como amiga e amante e que desejo você como nunca desejei mulher alguma... – falou com uma voz flamejante de paixão.

Meus braços caíram em meu colo enquanto tentava entender tudo o que ele disse.

- Amanda?

- Você pensa em mim? – perguntei em um tom de surpresa.

- Sempre! – disse sorrindo.

- Posso te pedir um favor?

- Claro!

- Me beija?

Ele apenas sorriu aquele sorriso travesso e me beijou.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

OLHOS DE ESMERALDA


- Quem é ela? – perguntei com a voz embriagada de curiosidade.

- Ela quem? – meu primo estava olhando para a pista de dança tentando adivinhar de quem eu falava.

- Aquela de vestido verde – apontei para uma bela garota de cabelos castanhos.

- Ah... Não tenho ideia!

- Então vou descobrir! – disse ao meu primo e me dirigi rumo à pista de dança.

Enquanto me aproximava pude ver como ela era linda, seus olhos cor de esmeralda pareciam esconder algum mistério, meu estômago deu cambalhotas. Ela estava rodeada de amigas, seria complicado chegar mais perto. Nesse instante uma ideia me veio à cabeça, tomei cuidado para que ninguém percebesse e propositalmente coloquei o meu pé para que ela tropeçasse e caísse. Deu certo e antes que ela fosse ao chão a segurei pela cintura.

- Opa! Quase! – disse olhando em seus belos olhos e levantei-a.

- Quase mesmo! Obrigada! – agradeceu olhando fundo nos meus olhos, um calafrio percorreu minha espinha, parecia que ela sabia exatamente quais eram minhas intenções.

- Qual é o seu nome? - perguntei, ela não desviou o olhar em nenhum momento, apenas sorriu e como o dedo indicador me convidou para segui-la enquanto desaparecia no meio da pista.

Eu a segui, mas não consegui encontrá-la. Fiquei sem entender nada, para onde ela teria ido? Embrenhei-me na pista para achá-la, mas não a localizei. Desanimado, voltei para o bar, meu primo estava apoiado no balcão.

- Ela sumiu! – disse amuado.

- É, eu vi! – disse segurando a risada.

- Qual é a graça? – perguntei sério.

- Nenhuma! Esquece isso vai! Vamos dançar! – disse e deu um último gole na sua bebida.

- Vamos... - concordei com um muxoxo.

Fomos para a pista e não demorou nada para nos perdermos em meio às batidas da música. De repente, ela surgiu na minha frente, seu corpo se movimentando de acordo a batida da música, era como uma visão para mim. Meus olhos captavam cada movimento que ela fazia e um desejo tomou conta de mim. Ela me olhou nos olhos, sorriu e desviou o olhar. Levantei seu rosto e com o meu dedo indicador desenhei o contorno dos seus lábios, me aproximei para beijá-la...

TRIMMMMMMMM...

Maldição! Agora é hora de você despertar? Não podia ter esperado cinco minutinhos? Cinco minutos? – praguejei, virei para o lado e tentei voltar para o mesmo sonho, mas não consegui. Irritado levantei e fui tomar um banho para relaxar. Porém durante todo o dia a memória daqueles olhos cor de esmeralda não saiu da minha cabeça.



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