Discutível Perfeição: Julho 2018

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terça-feira, 31 de julho de 2018

DESTINO


A campainha tocou, isso me atemorizou, quem será? Vítima da curiosidade, caminhei a passos largos até a porta. Respirei fundo, lancei a mão até a maçaneta e a torci. Enquanto a porta saia do meu campo de visão, tentei formular hipóteses. Finalmente tive minha curiosidade saciada, contudo, agora, a confusão reinava.

- Olá! – disse com certa ansiedade em sua voz.

- Hum... Oi! – articulei com certa dificuldade.

- Posso entrar? – averiguo.

- Claro! – autorizei.

- Obrigado! – agradeceu enquanto adentrava.

- Desculpe minha curiosidade... Mas... Porque você está aqui? – inquiri.

- Precisamos conversar... – avisou com certa seriedade em sua voz.

- Sobre? – pesquisei.

- Nós! – proferiu de uma única vez.

- Ok! – pronunciei e espirei – Não estou entendendo nada... – confessei.

- Já esperava por isso... – disse e sorriu.

- Então... Você vai acender a luz ou vou ter que fazer tudo sozinha? – indaguei.

- Eu acendo... – articulou divertidamente.

- Obrigada! – disse e me sentei.

- Hum... Anita... Sei que andei meio distante... Fugindo, pra ser mais exato... – explicou.

- É! Percebi isso há algum tempo... Mas... A única coisa que não consegui entender é por que... – confessei.

- Você não faz mesmo idéia? – pesquisou.

- Não! Nem sombra... – disse amuadamente.

- Quando me disseram que você é muito ingênua... Não acreditei... Contudo... Acho que devo dar razão... – falou distraidamente.

- Rodrigo! Você veio aqui pra me dizer o que as outras pessoas falam de mim pelas costas? – averigüei.

- Não! Na realidade vim para lhe dizer que... – hesitou.

- Fala criatura! – pressionei.

- Que me afastei de você porque descobri que estou deslumbrado por ti... Apaixonei-me pela namorada do meu melhor amigo... – elucidou.

- Você se apaixonou por mim? – examinei.

- Sim! – respondeu.

- Onde você está com a cabeça? – questionei.

- Não sei! Anita... Juro que tentei evitar... Mas não consegui... – cientificou.

- E o que você espera que eu diga? – investiguei.

- Na verdade... Nada... Apenas achei que você deveria saber... – admitiu.

- Bom, isso me parece justo... Agora... Preciso admitir... Pretendia te procurar... – revelei.

- Por quê? – inquiriu.

- Depois que você começou a se afastar de nós... Percebi que estava acontecendo algo estranho comigo... Meus sentimentos pelo Paulo mudaram... De alguma forma tudo virou de ponta cabeça... – expliquei.

- Anita... Você esta tentando me dizer o que? – interrogou.

- Que me apaixonei por ti... – aclarei.

- E onde o Paulo fica nessa zona toda? – pesquisou.

- Nós terminamos há alguns dias... – explanei.

Sorriu travessamente, isso fez meu coração bater a uma velocidade anormal. Nesse instante, cruzou a sala e antes que pudesse compreender o que estava acontecendo, me beijou.

domingo, 29 de julho de 2018

INCONFUNDÍVEL


Meus olhos observam novamente a mesma paisagem, continuo buscando nela o olhar que ainda me é desconhecido. O ônibus anda a uma velocidade constante e isso me faz analisar os rostos que ali estão. Pessoas de todos os tipos decoram o lugar, contudo nenhuma delas roubou minha atenção. O vento tocou minha face e meus olhos se fecharam por um momento.

Focalizei em minha mente um semblante desconhecido, mais uma vez observei o mesmo rosto de outrora, nunca consegui me livrar da lembrança dessas linhas. Em todos os meus sonhos lá estavam os mesmos olhos cor de topázio e o sorriso desconcertante. Involuntariamente um tolo sorriso brotou em meus lábios, porém durou apenas alguns segundos. Logo as lágrimas resolveram beijar minhas bochechas. “É como procurar uma agulha em um palheiro!” Pensei e com as costas da mão removi as gotinhas que corriam pela face, em seguida abri os olhos.

Ao meu lado estava sentada uma senhora bem apessoada, sua boca era pitada com batom carmim e seus olhos eram de um verde tão profundo. Senti minhas bochechas corarem quando percebi que ela assistiu meu choro silencioso.

- Minha jovem! Não te preocupes com coisas que ainda não compreendes... Nem tudo precisa de uma explicação... – disse com uma voz confeitada de carinho.

Sorri timidamente – Obrigada! – agradeci.

Nenhuma outra palavra foi proferida pela tal senhora, nem eu tive coragem de dizer-lhe algo. Apenas voltei meus olhos para a janela e busquei manter minha mente ocupada.

Quando dei por mim, meu ponto era o próximo. Acomodei os livros no braço direito, enquanto coloquei no ombro esquerdo as alças da bolsa. Assim que tudo estava perfeitamente encaixado, levantei e com certo cuidado sai no corredor. A senhora me assistiu durante todo esse tempo sem proferir uma única palavra, nem quando lhe pedi licença para passar. Acionei o sinal e caminhei para a porta.

- Minha jovem! – chamou com certa ansiedade em sua voz.

Virei-me instantaneamente - Sim! – respondi.

- Só tu reconhecerás a música que nunca ouvistes... Adeus! – disse e voltou seu rosto para frete.

Nesse instante fiquei paralisada, minha mente tentava organizar os vários pensamentos, porém a tarefa não era fácil. O ônibus brecou no ponto, ouvi as portas se abrirem. Forcei meu corpo a sair do lugar, marchei com certa relutância até a porta. Quando já estava fora, ouvi o ônibus partir. Meus pensamentos continuavam confusos como peças de um quebra cabeça. Sinceramente, não compreendi as últimas palavras que a senhora expusera, entretanto, sabia que de nada adiantaria tentar encontrar o esclarecimento para as perguntas que me incomodavam. Então, nesse momento finalmente compreendi algo que já deveria ter entendido. Tudo tem sua hora, não cabe a mim montar o quebra cabeça. Essa é a tarefa do tempo, ele se incumbirá de colocar cada peça em seu devido lugar.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

RENASCENDO


Estou submergindo no oceano das lembranças, contudo a falta de ar e a escuridão são tão deleitáveis. A cada novo segundo a morte está mais próxima e ao contrário de muitos, pacientemente espero pelo seu abraço.

Enquanto era tragada, assisti pela milésima vez ao mesmo filme, conhecia cada fala e o seu desfecho, mas ansiei ter capacidade para alterar seu enredo, entretanto sabia que isso seria impossível. Todas as palavras já haviam sido ditas e as verdades se revelaram nas entrelinhas. Não obstante, o medo de ter decidido por um erro retornara, contudo não havia prestado atenção nas placas que indicavam o caminho, sabia que a culpa por ter chego ao beco sem saída era minha.

Agora, só me resta um último fôlego, mas o libertei cedo demais. Então, o abraço que tanto esperei, foi dado. Fechei os olhos poucos segundos depois.

Acordei assustada, minha respiração era ofegante. Tentei organizar meus pensamentos, surpreendentemente consegui encaixar todas as peças do quebra-cabeça. Um sorriso tolo foi pintado em meus lábios assim que compreendi que poderia deixá-lo e partir sozinha. Finalmente acordei desse pesadelo quando fechei os olhos, porque nesse momento descobri que estou viva.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

SORRISO


Quem és nesse exato momento? Qual é a maneira que olhas para os que estão agora a tua volta? Será que existe um sorriso desconcertante decorando as linhas do teu rosto? Ainda és o mesmo ou agora assumiste uma máscara? Quais são os segredos que teus olhos ocultam? Quantas verdades tens camuflado com tuas mentiras? Chega! Gritei, mas esse grito não teve efeito, minha mente desobedeceu. Chacoalhei a cabeça com o desígnio de dispersar todos os questionamentos. Virei outra vez na cama, apenas mais uma tentativa de encontrar uma posição confortável, parecia que estava deitada sobre pregos. Afundei a cabeça no travesseiro, cerrei os olhos e sai em busca da inconsciência.

... Era uma clareira, continha flores do campo por toda dimensão. Havia um rapaz sentado ali, parecia parte da paisagem, entretanto existia algo que o distinguia. Involuntariamente dei alguns passos em sua direção, minha aproximação sutil foi notada, girou para me encarar. Nesse momento pude deslumbrar seu rosto, nunca vi alguém com aquele olhar, ao mesmo tempo era misterioso e sincero. Não consegui achar explicações para o que senti quando seus olhos enamoraram-se dos meus. Com movimentos graciosos se colocou em eixo, mas sua expressão era séria. Caminhou como um guepardo, a cada passo um novo frisson declinava pela minha espinha, brecou a apenas um metro de distância.

- Vem comigo? – questionou docemente.

- Pra onde? – rebati.

- Apenas me siga... – comandou e estendeu sua mão.

Um misto de medo e insegurança me alagou, todavia a sede em descobrir para onde iríamos era maior, então resignei. Segurei sua mão e deixei-me ser guiada. Cruzamos a clareira sem trocarmos uma palavra sequer. Assim chegamos à margem, vi claramente a divisão entre a luz e a escuridão, um calafrio passou do alto da cabeça até a planta dos meus pés.

- Corra! – disse e saiu em disparada.

Foi por puro instinto que o segui, mas quando notei já tinha adentrado na floresta tenebrosa. Procurei pelo rapaz, mas não existia qualquer sinal dele em parte alguma.

- Hey! Vamos! Não tenho o dia todo! – gritou, mas sua voz era distante.

Virei na direção do som. O avistei em outra extremidade da floresta onde luz e sombra novamente se tocavam. Dirigi-me até ele e à medida que me aproximava vislumbrava mais nitidamente a relva verde, o céu em uma amalgamação de algodão e mar, ouvia ao longe o ruído das águas correntes, os pássaros a cantar...

- Que lugar é este? – questionei, pude perceber a surpresa e encantamento verterem da minha voz, enquanto me virava para defrontá-lo.

Não respondeu, apenas contorceu os lábios em um sorriso. Uma emoção incomum dominou meu ser, algo que nunca havia sentido. Vi meus escudos irem ao chão, certezas e idéias desaparecerem como um passe de mágica.


Abri os olhos e a escuridão encarou-me. Nem nos sonhos me deixas em paz! Suspirei e então sentei na cama. Estou presa a memórias que não deveriam durar, todavia minha mente faz questão de revivê-las toda noite. Ele roubou minhas armas e aprisionou meu coração com apenas um sorriso. Como podes fazer isso comigo? Por que arruinar meus planos de viver sem alguém? Contudo essas respostas não têm mais valor, sou nação vencida e por ironia do destino fui derrotada por uma arma tão singela, algo que jamais temi, mas agora vejo como é perigosa.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

REVELAÇÃO


Nossas pernas estavam enroscadas como dois anzóis sob o edredom. Minha cabeça permanecia sobre seu peito, estava ouvindo cada batida do seu coração. A respiração calma e compassada indicava que a inconsciência o dominava. Desejei poder fechar as cortinas dos meus olhos e ser levada para um mundo onde esse sentimento não tem domínio sobre mim, contudo ainda estava encarando a escuridão. Percebi que meus olhos estavam ficando mareados por lágrimas, segurei o choro. Cogitei levantar, mas fiquei com receio de acordá-lo. Todavia, não poderia segurar as lágrimas por muito tempo. Com muito cuidado levantei minha cabeça de seu peito, apoiei os cotovelos no colchão e desenrosquei nossas pernas. Assim que me vi livre, rolei em direção a beira da cama. Repousei meus pés no piso e vagarosamente andei até a porta, agradeci que estava apenas encostada. Já do lado de fora segui até a cozinha, peguei uma caneca de louca e a enchi com café. Andei silenciosamente até a porta que dava saída para a sacada, a abri e segui para uma das cadeiras que lá estavam. Observei a noite, o céu estava estrelado, mas não havia lua. Milhões de pensamentos foliavam em minha mente, entretanto nenhum deles me agradava. Coloquei meus pés na ponta da cadeira e encarei a caneca com café, ainda não havia tomado um gole sequer. Analisei atentamente à fumaça que subia, era como um balé.

- O que tu estas fazendo aqui? – perguntou com um tom preocupado, isso me assustou.

- Nada, só não consigo dormir... – expliquei, mas havia tristeza em minha voz, torci para que não houvesse percebido.

Andou calmamente até a cadeira mais próxima, a todo o momento me analisando. Fiz o mesmo enquanto ele se aproximava, mas me pareceu que nada o incomodava.

- É a terceira noite essa semana que tu ficas com insônia... O que esta acontecendo? – questionou com uma das sobrancelhas levantadas, estava errada, algo o chateava.

Desviei meus olhos dos dele, encarei a caneca – Nada... – respondi, ou melhor, menti.

Sua mão flutuou até o meu queixo e delicadamente elevou minha face – Te conheço muito bem, não mintas pra mim... O que seus olhos têm escondido? – calma e doçura confeitavam sua voz.

- Estou com medo... – declarei e então uma gotinha brotou em meus olhos e correu pelas bochechas.

- Medo? – indagou, a confusão era nítida.

Não posso esconder isso por muito mais tempo, ele precisa saber. Suspirei e engoli alto – Estou grávida... – sussurrei.

Nesse momento sua expressão era uma perfeita gororoba, mas finalmente um sorriso definiu o sentimento predominante, alegria era a emoção que coloria seu rosto.

- Mesmo?! – disse em um tom abobalhado e então ponderou – Ah... Agora entendo... Tudo vai dar certo! Não tenhas medo, vou estar ao teu lado sempre! – declarou com a voz transbordante de alegria e confiança.

Inclinei meu corpo para o lado e coloquei a caneca com o café no chão, então sai do meu lugar para sentar no seu colo. Recebeu-me de braços abertos, lágrimas correram pelo meu rosto – Obrigada! – disse entre soluços e afundei meu rosto em seu peito.

- Te amo! – sussurrou em meu ouvido, tentei evitar, mas um sorriso decorou minha expressão.

- Eu também! – proferi e uma nova sensação me inundou; pela primeira vez em dias me senti segura.

Não ficamos ali por muito tempo, logo voltamos para dentro. Seguimos direto para nosso quarto, contudo nenhum dos dois dormiu. A necessidade de termos um ao outro era tão forte que não conseguimos nos conter. Palavras eram desnecessárias, apenas olhares e toques descreveram o que desejávamos dizer. Apesar do medo e insegurança sabíamos que nunca estaríamos sozinhos.

sábado, 21 de julho de 2018

TENTANDO DESLIGAR


Por que minha mente não se desliga? Não posso mais ficar pensando nisso! Céus! Preciso de foco! Algo que me distraia... Sai da minha cama e fui até a estante do outro lado do meu quarto, procurei por algum livro, talvez se emprestasse meu raciocínio a algum deles tiraria minha atenção dessas idéias incoerentes. Voltei com três livros em minhas mãos, “O Cortiço” de Aluísio Azevedo, “Lira dos Vinte Anos” de Álvares de Azevedo e “Crepúsculo” de Stephenie Meyer, deitei novamente em minha cama e analisei livro por livro. Qual deles vou ler? Meu pequeno acervo era minha salvação em dias como este, porém a dúvida me inundava. Todos os três já tinham sido lidos há meses atrás, acho que o mais recente foi “O Cortiço”. A memória do dia em que reli este livro invadiu minha cabeça, um calafrio percorreu meu corpo, límpida com água cristalina, pude lembrar dos motivos que me levaram a reler este livro. Chacoalhei minha cabeça para que a lembrança se fosse e então o empurrei para longe das minhas vistas. Observei a capa dos outros dois livros e comecei a analisá-los, minutos se passaram e minha mente começou a brincar novamente com as fantasias que queria esquecer, sacudi a cabeça para que as imagens que achincalhavam em meus pensamentos se dissolvessem. Segurei-os em minhas mãos e fiz observações em minha mente, agora limpa. Lira dos Vinte Anos, romântico, doce, cheio de metáforas; Crepúsculo, romântico, engraçado, menos metáforas, fácil de ler. A última observação foi decisiva, fácil de ler, era disso que precisava; nada de muitas analogias. Então empurrei os dois bolos de papel para longe de mim e agarrei o escolhido, o abri e comecei a minha submersão a estória.

Quando havia chegado ao quinto capítulo minha mente já estava longe, mais uma vez perdi o foco. Fechei o livro com raiva e o coloquei sobre o criado mudo. Raios! Será que não posso esquecê-lo por um minuto? Um minuto! É pedir demais? Mas não, estou aqui deitada lendo um livro e começo a me imaginar no meio da estória... Perfeito! Demorei um longo tempo decidindo o que ler e agora me perco em meio a esses pensamentos, isso não é justo! Sentei na cama e meus pés pousaram sobre o chão gelado do meu quarto, levantei e segui até a janela, a abri e observei o movimento. Calmo como sempre, ou melhor, tudo estava calmo. O problema nessa equação sou eu! Como alguém pode fazer isso comigo? Estava muito bem antes desse garoto aparecer e agora tudo esta um caos. Ok, ok! Ele é bonito, engraçado, gentil, carinhoso, responsável...

- Ahhhh! – gritei comigo mesma.

Não, não vou ficar aqui pensando nesse garoto. Segui até meu aparelho de som, procurei meu CD de rock, assim que o encontrei um sorriso se formou em meus lábios, o coloquei e em questão de minutos os sons da guitarra e bateria dominaram o ambiente, ergui o volume. Cogitei deitar novamente, mas desisti da idéia quase que instantaneamente. Então, me sentei no chão frio, abracei as pernas e coloquei o queixo sobre meus joelhos. Foquei minha atenção na letra da música, só assim poderia me desligar das idéias absurdas que estavam dançando em minha mente.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A DANÇA


O som que vinha de duas caixinhas pretas no canto da sala fazia meu corpo movimentar-se, a cada batida uma nova oscilação nascia e o reflexo no espelho revelava um sorriso involuntário. Minha mente se via mais longe dali a cada segundo, a realidade era apenas uma amarga lembrança. Meu corpo contorcia-se e retorcia-se e a sensação que corria por minhas veias, era a cada segundo mais intensa. Meus olhos fecharam-se e meu coração galopava a uma velocidade anormal, quase saindo do peito. Finalmente fui conduzida para um mundo novo, onde nada mais era tão necessário, cores e luzes se misturavam em um balé descoordenado. Porém, cedo demais fui trazida de volta. Minhas pálpebras levantaram-se enquanto a música dava seus últimos suspiros. Encarei-me no espelho, a imagem refletida estava embaçada, forcei a visão para que tudo ficasse mais claro.

- Uau! Isso foi fantástico! – declarou uma voz distante, mas coberta de surpresa.

Virei-me de maneira brusca, meu coração ainda martelava e minha respiração era ofegante – Faz quanto tempo que você está me espionando? – perguntei em um tom transbordante de ira.

- Acabei de chegar... – respondeu calmamente.

- Hum... A propósito... Quem é você? – questionei com uma sobrancelha levantada.

- Não importa... – declarou com um sorriso travesso, seguiu até o aparelho de som e começou a derribar a pilha de CDs. Parecia que estava procurando algo, mas o quê?

- Desculpe, mas você não pode mexer nesses CDs... – informei em um tom sério enquanto me aproximava dele. Contudo, ele continuou ali. Um sentimento de fúria invadiu-me de tal modo. Como alguém entra aqui e faz o que quer sem pedir autorização? – Você me ouviu?! – gritei, mas fingiu que nada estava acontecendo – Eu vou chamar a diretora do estúdio! - ameacei.

Virei-me e segui a passos largos rumo à porta, mas não foram necessários mais do que quatro passos e uma mão segurou fortemente meu braço. Um som estranho, pelo menos pra mim, invadiu o ambiente. A batida era convidativa, sensual... Talvez... Não! Apaixonante... Essa era a palavra certa. Ele me puxou de maneira que o enfrentasse, sua outra mão agarrou minha cintura, levantei meu olhar para encará-lo. Assim que nossos olhos se encontraram um arrepio percorreu meu corpo, vi o desejo pulsar neles. Sua perna esquerda encaixou-se entre as minhas e moveu-a de tal maneira que meu corpo se curvou para trás, sua mão em minha cintura definiu a direção, girei cento e vinte graus e então voltei meu corpo ao eixo. Sua mão direita correu pelo meu braço até que encontrou minha mão, segurou-a e seu pé deu a direção. Ao som da batida da música valsamos, todavia não eram passos suaves como em uma valsa, mas firmes. Ele me conduzia de uma maneira diferente, nunca havia dançado daquela forma com ninguém. Havia momentos em que via seus olhos queimarem. Me deixei ser guiada. Foram minutos únicos, desejei que o momento durasse mais, porém tão logo a música despediu-se. Estávamos ofegantes, no entanto continuamos girando por alguns segundos e então paramos. Tentei encontrar minha voz, mas não tive sucesso. Apenas o olhava, um sorriso levado apareceu em seu rosto, entretanto seus olhos estavam em brasa. Ele aproximou seu rosto do meu, seu nariz acariciou minha bochecha e um novo arrepio cruzou meu corpo. Imediatamente meu coração que já batia intensamente, acelerou mais.

- Obrigado pela dança! – sussurrou em meu ouvido e então me soltou.

Meus olhos ainda estavam vidrados nele – Quem é você? – questionei novamente.

- Não importa! – disse e saiu pela tangente.

Todavia, continuei ali parada, tentando processar tudo o que havia ocorrido. Quem seria ele? Que dança foi essa? No entanto, não haviam respostas para nenhuma dessas questões. Levantei meu rosto e encarei meu reflexo no espelho, existia um sorriso bobo decorando minha expressão. Apesar de não ter uma explicação plausível para o que aconteceu esta tarde, tenho uma única certeza, foi suficiente para ser inesquecível.



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