Discutível Perfeição

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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

BAILE DE MÁSCARAS


A música era tão alta que fazia o chão tremer, meu corpo acompanhava as batidas enquanto a mente devaneava. Uma sensação de liberdade tomou conta do meu ser de tal maneira que não conseguia mais me conter. Fechei os olhos por um momento e de repente meu corpo perdeu o equilíbrio, aquela sensação desapareceu instantaneamente. Abri meus olhos e percebi que o teto ficava cada vez mais longe e as pessoas a minha volta estavam cada vez mais altas. Eu estava caindo? Nem me lembro de ter tropeçado... Aguardei o inevitável, mas algo me impediu de colidir com o chão.

- Opa! Quase... – uma voz galante me informou enquanto me levantava.

- Obrigada! – respondi e me virei para encará-lo.

Assim que meus olhos encontraram os dele, uma corrente elétrica correu pela minha espinha. Seus lábios se contorceram em um belo sorriso, não consegui conter-me, sorri também.

- Minha princesa... Tens de tomar cuidado... – avisou de maneira doce e divertida.

- Desculpe-me, nobre cavalheiro! Terei mais cuidado! Prometo-lhe! – disse da maneira mais serena que pude.

- Tens um belo sorriso... No entanto só lamento não poder ver teu rosto... – afirmou em um tom abatido.

- É um baile de máscaras... Conheces as regras... Ainda não está na hora... – avisei e apontei para o relógio no centro do salão – Falta uma hora... – disse sorrindo.

- Conheço bem as regras... Porém, desejo ver-te... – disse e uma de suas mãos foi em direção ao meu rosto, mas hesitou – Como saberei quem és tu? – desafiou.

- Você me achará! – levei as mãos até o meu pescoço e desabotoei o fecho do cordão de prata, nele havia um pingente com uma linda pedra – Perdi meu cordão e espero que um belo cavalheiro o encontre... – proferi e soltei-o, antes que atingisse o chão ele o apanhou e sorriu para mim – Antes da meia-noite... – disse, me virei e segui rumo à multidão.

O jogo começou! Sorri com aquele pensamento. Aproveitei o máximo que pude da festa, porém abdiquei ao desejo de entregar-me novamente as batidas da música, apenas me concentrei no jogo.

O relógio marcava quinze pra meia-noite, faltava pouco agora. Onde estou com a cabeça? Perguntei para mim mesma, todavia não sabia o porquê de tê-lo desafiado. Talvez... Não! Não vou mentir para mim mesma, o motivo de ter iniciado esse jogo foi por causa daqueles olhos azuis, como o pingente do meu cordão, uma linda água marinha que agora estava em suas mãos em algum lugar desse salão. Que mistérios existem em seus olhos? Será que o verei novamente? Questionamentos que despertavam minha curiosidade. A música me convidava, tentei ser forte e resistir à vontade. Lancei outro olhar em direção ao relógio, faltavam apenas dois minutos. O jogo estava terminando e pelo jeito não haverá ganhador, não verei o dono dos belos olhos azuis outra vez. Bem, talvez mereça mais uma dança antes de revelar minha identidade; pensei e sai em direção à pista de dança.

- Princesa... – uma voz doce sussurrou ao meu ouvido, meus lábios se contorceram em um grande sorriso - Acredito que perdeste teu cordão... – informou e o colocou em meu pescoço, um arrepio correu por todo meu corpo quando o fez.

- Como me encontrou? – perguntei ainda travada no mesmo lugar.

- Nenhuma garota desse salão tem olhos tão cativantes quanto os teus... – sussurrou de modo gentil ao meu ouvido.

Virei-me para encará-lo – Ainda queres me ver? – questionei com uma pitada de medo em minha voz.

- Esperei por isso a noite toda! – disse e sorriu.

Levei as mãos ao meu rosto, retirei a máscara e voltei meu olhar para encará-lo. Para minha surpresa ele também havia retirado seu disfarce, finalmente pude ver o dono dos belos olhos azuis.

- És linda! – disse com a voz transbordante de surpresa.

- Obrigada! – agradeci e corei. Suas mãos foram em direção a minha bochecha e gentilmente deslizou seus dedos sobre ela.

- Tu pareces um sonho... Qual o teu nome? – perguntou sem tirar seus olhos dos meus.

- Alice... – disse distraidamente - E o teu? – questionei.

- Rodrigo... Meu nome é Rodrigo... – disse com uma voz confusa.

Dei um passo em sua direção, mas em momento algum desviei meu olhar. Sua outra mão flutuou até a minha cintura, onde fechou o espaço entre nós. Aproximou seus lábios dos meus, hesitou, porém não resistiu e me beijou. A confusão de emoções e desejos era tanta, tentei ser racional, mas não consegui conter minhas reações. Soltei minha máscara e levei minhas mãos aos seus cabelos, me perdi em meio aquele momento. O tempo parou e a música agora era apenas uma lembrança distante. Todavia por mais que não quiséssemos, nossos lábios se separaram. Abri os olhos e o observei, havia em seu olhar uma mistura de emoções, tentei identificá-las, porém não tive sucesso.

- Danças comigo? – perguntou.

- Claro! – respondi e sorri.

Durante o resto da noite trocamos poucas palavras, nossos olhos revelavam muito mais. O jogo de disfarce terminou e a festa já estava quase acabando. Alguém roubou meu olhar essa noite, certo rapaz de sorriso travesso e olhos azuis, porém a noite já dava seus últimos suspiros e uma dúvida invadiu minha mente. Tudo terminará com o nascer do sol?

♪♫♪ "Masquerade" – Backstreet Boys ♪♫♪

domingo, 2 de dezembro de 2018

SOB O TAPETE


- Por que escrever? Qual o sentido nisso? – ela me perguntou com a sobrancelha arqueada. Estava claro como água cristalina que ela não aprovava minha decisão. Quanto a mim?! Bem... Eu só revirei os olhos e lhe dei as costas.

- Eu não terminei de conversar com você, mocinha! – seu tom era autoritário. Sério. Por que as mães não podem simplesmente apoiar seus filhos? Eu não mereço esse interrogatório! Não mesmo! - Volte aqui e me explique nos mínimos detalhes essa idéia absurda de ser autora... 

- Não é ser autora, mãe... É ser escritora! – gemi enquanto girava o corpo para enfrentá-la. – Há uma grande diferença entre os dois! Imensa!

Seus olhos se estreitaram, então foi a vez dela bufar. – Que seja! - Mãe, eu sei que a senhora não entende... Mas, eu realmente quero fazer isso! – argumentei com os olhos colados nos dela.

- Ninguém vive de escrita! Não há futuro para você... – e lá estava a famosa placa com luzes de neon. Por Deus! Será que ninguém conseguia acreditar que eu realmente era boa?! Claro, claro! A minha professora de língua portuguesa me incentivou a cursar letras durante tudo o ensino médio. Acho que... É! Ela acreditava no meu talento! Sorri para mim mesma com a lembrança, antes de voltar os olhos para minha mãe mais uma vez.

- Olha, mamãe... Você pode não entender, mas é isso que eu quero fazer com a minha vida. Escrever, escrever e escrever... Nada, além disso, me atrai. – essa era a mais pura verdade. Eu não me imaginava atrás de uma mesa, ou em um consultório. Meu lugar era atrás daquela escrivaninha de madeira velha, não atrás de balcões e toda a glória de uma bela carreira executiva.

- Sonhos não enchem barriga! – sua declaração me trouxe de volta ao presente.

Então, enchi meus pulmões com aquele ar úmido de uma manhã de sábado. Era inútil discutir, portanto, colei um sorriso falso nos lábios e com toda dissimulação possível concordei com ela.

- Ótimo! Agora, vamos falar sobre aquelas vagas de trainee! – e mais uma vez ela conseguiu tudo o que ela queria.

Ops! Ou melhor, ela pensa que conseguiu. Afinal, dessa vez eu não estava desistindo. De um jeito ou de outro, tem que dar certo. Mesmo que por hora, minha carreira de escritora tenha que ficar sob o tapete.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

CAMPO DE TRIGO


Eu estava deita em minha cama remoendo pela milésima vez os mesmos acontecimentos. Tudo estava de ponta cabeça, um verdadeiro caos. Nada era como antes, a cada dia eu me olhava no espelho e a imagem refletida estava mais irreconhecível. Quando essa garota tomou meu lugar? Indagava pra mim mesma, no entanto só sentia dores cada vez mais fortes em meu peito. Minhas forças estão arruinadas e minha esperança pela primeira vez em anos, submergia. O medo havia me dominado de tal forma que nada mais tinha um significado. Destruídas; acho que essa palavra descreve bem minhas emoções. Nada mais fazia sentido nesse planeta maluco, minha vontade de desistir tornava-se mais forte a cada minuto. Bases quebradas, sonhos frustrados. Como recuperar alguém que esta totalmente destroçada?

- Socorro! – sussurrei e lágrimas rolaram pelo meu rosto, era um choro amargo.

Abracei meus joelhos e a dor se tornou insuportável, parecia que alguém estava apertando meu coração e como num flash a inconsciência me abraçou. Acordei no meio de um campo de trigo, o vento bagunçava meus cabelos e o sol me cegava. Com certa dificuldade avistei um rio de águas cristalinas, dei alguns passos em direção a ele.

- O que faz aqui minha jovem? – uma voz baixa questionou.

Virei-me para ver quem era o dono da voz, me surpreendi com o que meus olhos avistaram, era um jovem de pouco mais de vinte anos que vinha em minha direção.

- Sinceramente... Não faço a menor idéia... – respondi confusa.

- Alguém ouviu teu pedido de socorro... Hora de se libertar... Voltar a ser a pessoa maravilhosa que era... Ainda posso ver algo especial em seus olhos... – disse calmamente enquanto se aproximava de mim.

- Como você fará isso? – perguntei confusa e ao mesmo tempo desacreditada.

- Venha comigo... – disse e agarrou uma das minhas mãos.

Andamos por aquele campo até chegarmos à margem do rio. Naquele momento meus olhos deslumbravam a beleza daquele lugar, como algo tão belo pode existir? Encanto; acho que essa é a palavra para definir o que estava sentindo. Me virei e o encarei, meus pensamentos estavam confusos. Ele me olhou de uma maneira tão afetuosa, como se soubesse exatamente o que estava se passando na minha mente.

- Sei que você está dominada pelo medo, mas não pode deixar que ele te impeça de fazer o que você precisa fazer... Tua missão ainda não está acabada... Não é hora de desistir... Levante-se e encare o medo... Não penses que és fraca apenas por confessar que não tem mais forças para continuar... Isso é uma atitude nobre... – disse docemente.

- Mas...

- Não se deixe sobrepujar... Você só voltará a se reconhecer quando dominar o medo... Agora é hora de voltar à realidade... - disse e me empurrou para dentro do rio.

Acordei assustada, mas me senti diferente. A dor que me perturbava, agora já não tinha tanta força. Sentei na minha cama e comecei a pensar. O que significava aquele sonho? Como iria controlar o medo? Perguntei para mim mesma, entretanto ainda não tinha respostas. Resolvi ir tomar um banho para relaxar, afinal de cabeça quente não conseguiria pensar em uma solução sensata. Contudo as palavras que aquele rapaz me disse faziam algum sentido. Mas ainda não sabia exatamente qual, porém vou descobrir.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

DECISÃO


Meus olhos abriram-se com tamanha preguiça, abraçada ao edredom rolei para o outro lado da cama. Não estava com vontade de levantar, todavia, era preciso. As responsabilidades me gritavam, tentei ignorá-las, mas não tive sucesso. Suspirei ao focar meus olhos na janela, ainda estava nublado. Então, num ato programado, rolei novamente para a beirada da cama e tão logo coloquei meus pés em contato com o chão gélido caminhei lentamente até a janela, abri as cortinas e encarei o dia cinzento. Permaneci ali por alguns minutos, mas logo dei as costas para a vidraça e segui rumo à cozinha, precisava de uma boa dose de café.

Durante o trajeto, me deparei com o relógio na parede. Por alguma razão desconhecida, me forcei a brecar. Observei com uma atenção fora do comum os ponteiros viajarem, me perguntei algumas vezes por que estava ali, contudo não encontrei uma resposta plausível. Minha mente começou a divagar, os ponteiros congelaram, lembranças açucaradas me inundaram. Um sorriso tolo se pintou em meus lábios, relembrei detalhes dos quais havia esquecido. De repente a campainha tocou, isso me fez dar um pulo. Ainda meio desnorteada, marchei até a porta e com certa má vontade coloquei a mão no trinco, girei a chave no tambor e torci a maçaneta. Abri a porta, mas não esperava ver o que vi.

- Você? - questionei.

- Quem mais seria? - inquiriu com certo azedume em seu tom.

- Olha, não temos mais nada pra dizer... Acabou, já entendi... - explanei.

- Será que posso entrar? - pesquisou.

- Ok... – autorizei com uma voz de mau humor.

Rapidamente adentrou e parou no centro da sala.

- O que você quer? - indaguei.

Expirou - Ainda me lembro como se fosse ontem do dia em que nos conhecemos, você sempre desatenta... – afirmou, seus olhos estavam desfocados, um sorriso brincou em seus lábios, no entanto durou apenas segundos - Fui um idiota, não deveria ter lhe dito aquelas coisas... Talvez devesse ter percebido antes, mas o caso é que não percebi, ou talvez não quisesse perceber... Estou loucamente apaixonado por ti... Confesso que lutei contra esse sentimento o máximo que pude, todavia não consegui evitar... - desabafou.

- O que você espera que eu diga? Sim! Porque tu me disseste coisas absurdas... Não posso simplesmente apagar da memória tuas palavras... - expliquei.

- Talvez... - iniciou, mas logo se calou.

- Não existe talvez... Como posso acreditar que serás meu porto seguro? – inquiri.

- O destino brincou com nossas vidas... Estamos, querendo ou não, ligados por uma fina linha e a decisão de cortá-la é apenas tua... Não vejo minha vida sem ti... Eu errei! Reconheço que errei e estou aqui para lhe pedir perdão... Me perdoa? – requereu.

- Minha pretensão é te colocar pra fora a pontapés... – suspirei – Mas, não farei isso... – afirmei.

- Por quê? – investigou.

- Talvez esteja cometendo o maior erro da minha vida se o fizer... Suas palavras me feriram, entretanto, é tarde demais para fugir... Estou ligada a você, não tenho mais o controle dos meus sentimentos... A verdade é que te amo... – confessei.

Nesse instante, ele saiu do meio da sala e veio em minha direção. Não tive tempo de reagir, segurou meu rosto entre suas mãos e quando percebi, já estávamos nos beijando loucamente. Era a primeira vez que nos beijávamos, estava totalmente perdida, ou talvez não, porque naquela manhã começamos a escrever nossa história.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

DESESPERANÇA


Qual é o significado de ser sozinha? Desde que ele partiu não existia outra pergunta em minha mente. Será que não posso estar com ele? Essa é a maldita dor que devo suportar? Por que a vida brinca comigo dessa maneira? Mas para nenhuma dessas outras perguntas existia uma resposta, simplesmente a vida segue como se nada tivesse acontecido, como se tudo que vivi não passasse de um belo sonho. Se for assim, agora vivo em um pesadelo e meu maior desejo é acordar! Porém, é a vida real e esse pesadelo não desaparecerá. Olhando pela janela do meu quarto vejo o sol, contudo não há mais sol em meus dias, há apenas uma nuvem negra que insiste em deixá-los sem propósito. Bem, acho que nada pode trazer de volta a alegria que outrora fora roubada, pensei e afundei minha cabeça novamente no travesseiro.

- Sinto tanto a tua falta! – sussurrei.

Finalmente elas apareceram, as lágrimas rolaram pelo meu rosto e o silêncio deu lugar aos soluços que brotavam da minha garganta. Era o som da desesperança. Deitada na minha cama abraçada ao travesseiro, chorei por um longo tempo até que a inconsciência me abraçou e levou-me para um mundo onde a dor não existia.



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