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terça-feira, 24 de maio de 2016

PORTA-RETRATO


Estava jogada no chão da sala e as lágrimas banhavam minha face mais uma vez. Os sentimentos eram como vermes consumindo cada parte do meu corpo. Milhões de idéias dançavam em minha mente, mas nenhuma fazia sentido. Desejei gritar, no entanto naquele momento minha voz não existia. Abracei-me, era apenas uma tentativa vã de acabar com a dor. Tentei encontrar forças para levantar, contudo meus braços se recusavam a obedecer. Forcei-os a soltar meu coração destruído, a dor aumentou, mas não desisti. Apoiei as palmas das mãos no chão gelado e imprimi força, meu tronco deslocou alguns centímetros, mas logo em seguida encontrou-se novamente com o piso frio. Vamos lá, levante-se! Gritei apenas em pensamento, pois continuava muda. Repeti o movimento de poucos minutos atrás e tive sucesso.

Finalmente em pé, percorri os olhos pelo ambiente e os pousei exatamente no porta-retrato que estava ao lado do monitor do meu computador. Senti uma flama invadir cada célula do meu corpo. Atentei para os vermes que antes me degustavam, agora torrarem. Minha visão tornou-se levemente avermelhada. Ainda encarava a foto presa naquele pedaço de vidro. Flutuei até a mesa, levei minhas mãos até o objeto, mas hesite. No entanto a ira era mais forte, então o agarrei e logo em seguida o arremessei no empilhado de tijolos e cimento. Assisti atentamente a trajetória do porta-retrato, ouvi o vidro esmigalhar-se assim que encontrou a parede e então meus joelhos não conseguiram mais me sustentar, choquei com o chão alguns segundos depois.

Um choro feroz cegou-me por algum tempo, os soluços trouxeram a angústia. Tentei falar, mas eram apenas movimentos, não havia som. Mais uma vez estava entregue aos vermes, o fogo havia se apagado. Procurei por socorro, precisava de alguém. Não, chega de mentiras! Não existe ninguém que pode me libertar dessa agonia. A memória da qual me esforçava para esquecer, retornara límpida como água cristalina, assisti novamente aquela cena. Senti a chama reacender, respirei profundamente e então outra vez em pé. Andei lentamente até os cacos do porta-retrato, agachei e peguei a foto.

- Chega de lembranças! Eu não quero mais te sentir! – disse corajosamente e para minha surpresa, agora as afirmações possuíam som, minha voz retornara.

Segurei a fotografia com a ponta dos meus dedos e os movi para direções contrárias, houve um som incomodo, mas em questão de segundos só existiam pedaços de uma lembrança em minhas mãos. Deixei que caíssem e então me pus em eixo mais uma vez, contudo não fiquei ali, segui até meu quarto e destrui outro retrato.

Nesta noite fiz algo que já deveria ter feito há muito tempo, aniquilei tudo o que me levava a este inferno particular. Sem razão e aviso, simplesmente me libertei de tudo. Ainda permaneceram memórias que me corroem, entretanto não posso retirá-las, pois são parte de mim.

Andei com frieza até o sofá e me atirei nele, a dor de tempos atrás ainda incomodava, porém agora era mais suportável. Não me permiti derramar mais lágrimas e apesar de estar na corda bamba, acrescentei uma nova palavra ao meu vocabulário. “Foi” é o vocábulo que irá iniciar todas as frases que dizem respeito a ele e aos poucos arrastarei para uma sepultura todas as recordações. É hora de sair desse inferno e seguir sem esta soledade.

♪♫♪ "Undone" – Backstreet Boys ♪♫♪

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